SURMOUNT-5: o que o primeiro estudo comparativo direto entre tirzepatida e semaglutida muda na prática clínica

Publicado no New England Journal of Medicine em maio de 2025, o SURMOUNT-5 é o primeiro ensaio clínico randomizado a comparar diretamente tirzepatida e semaglutida em adultos com obesidade — e os resultados têm implicações concretas para a tomada de decisão clínica.

Durante anos, a comparação entre tirzepatida e semaglutida foi feita de forma indireta — cruzando dados de estudos diferentes, com populações distintas, metodologias não padronizadas e sem o rigor de uma comparação cabeça a cabeça. Essa lacuna alimentou dúvidas legítimas na prática clínica: afinal, quando a escolha entre as duas é relevante, em que dados basear a decisão?

O SURMOUNT-5 fecha essa lacuna. Publicado em maio de 2025 no New England Journal of Medicine e apresentado no 32º Congresso Europeu de Obesidade, é o primeiro ensaio clínico randomizado fase 3b a comparar diretamente tirzepatida e semaglutida em adultos com obesidade sem diabetes tipo 2, com metodologia padronizada, população homogênea e desfechos pré-especificados.

Os resultados mostram superioridade estatisticamente significativa da tirzepatida em redução de peso, circunferência abdominal e parâmetros cardiometabólicos. Mas o que esses números significam na prática — especialmente para mulheres na menopausa, população com perfil metabólico específico e necessidades clínicas particulares?

Este artigo analisa o desenho do estudo, os dados principais, as limitações que precisam ser consideradas e as implicações para a tomada de decisão clínica individualizada.

Índice de conteúdo

  • O que é o SURMOUNT-5 e por que ele importa
  • Desenho do estudo: quem participou e como foi conduzido
  • Resultados principais: peso, circunferência e parâmetros metabólicos
  • Por que a tirzepatida produziu maior redução de peso
  • O que o estudo não responde
  • Implicações para mulheres na menopausa
  • O que muda — e o que não muda — na prática clínica
  • Perguntas frequentes
  • Conclusão editorial

O que é o SURMOUNT-5 e por que ele importa

O SURMOUNT-5 (NCT05822830) é um ensaio clínico randomizado fase 3b, multicêntrico, aberto e controlado, conduzido em 32 centros nos Estados Unidos e em Porto Rico entre abril de 2023 e novembro de 2024. Foi financiado pela Eli Lilly and Company, fabricante da tirzepatida.

Sua relevância está no desenho: pela primeira vez, tirzepatida e semaglutida foram avaliadas na mesma população, com a mesma metodologia, no mesmo período de seguimento, com desfechos pré-especificados e análise estatística planejada. Isso elimina os vieses de comparações indiretas e oferece uma base de evidência mais sólida para a tomada de decisão clínica.

O estudo foi apresentado no 32º Congresso Europeu de Obesidade (ECO 2025) e publicado simultaneamente no New England Journal of Medicine — o periódico de maior impacto na medicina clínica — conferindo ao SURMOUNT-5 o mais alto nível de visibilidade e rigor de publicação disponível.

Desenho do estudo: quem participou e como foi conduzido

Participantes

Foram randomizados 751 adultos com obesidade ou sobrepeso com pelo menos uma comorbidade relacionada ao peso — hipertensão, dislipidemia, apneia obstrutiva do sono ou doença cardiovascular — e sem diabetes tipo 2. O IMC médio dos participantes foi de 39,4 kg/m² e o peso médio de 113 kg. A idade média foi de 44,7 anos.

A maioria dos participantes era do sexo feminino (64,7%) e de etnia branca (76,1%), com inclusão de negros (19,2%) e hispânicos (26,1%) em proporção maior do que a observada em estudos anteriores — o que amplia a representatividade dos resultados.

Intervenção

Os participantes foram randomizados 1:1 para receber a dose máxima tolerada de tirzepatida (10 mg ou 15 mg semanais) ou semaglutida (1,7 mg ou 2,4 mg semanais), ambas por via subcutânea, por 72 semanas. O protocolo incluiu um programa de suporte comportamental padronizado para todos os participantes. A dose foi escalonada progressivamente até a dose máxima tolerada individualmente.

Desfechos

O desfecho primário foi a variação percentual no peso corporal do início até a semana 72. Os desfechos secundários incluíram proporção de participantes que atingiram reduções de peso de 10%, 15%, 20% e 25% ou mais, redução da circunferência abdominal e melhora de parâmetros cardiometabólicos — pressão arterial, glicemia, hemoglobina glicada, insulina em jejum e perfil lipídico.

Resultados principais: peso, circunferência e parâmetros metabólicos

Redução de peso

Na semana 72, a tirzepatida produziu redução média de 20,2% do peso corporal (IC 95%: -21,4 a -19,1), comparada a 13,7% com semaglutida (IC 95%: -14,9 a -12,6), com diferença estatisticamente significativa (p < 0,001). Em termos absolutos, isso corresponde a uma redução média de 22,8 kg com tirzepatida versus 15,0 kg com semaglutida.

Metas de redução de peso

A proporção de participantes que atingiram diferentes metas de redução de peso foi consistentemente maior no grupo tirzepatida:

  • Redução ≥ 10%: 81,6% com tirzepatida vs. 60,5% com semaglutida
  • Redução ≥ 15%: 64,6% vs. 40,1%
  • Redução ≥ 20%: 48,4% vs. 27,3%
  • Redução ≥ 25%: 31,6% vs. 16,1%
  • Redução ≥ 30%: 19,7% vs. 6,9% — quase três vezes mais participantes atingiram essa meta com tirzepatida

Circunferência abdominal

A circunferência da cintura reduziu em média 18,4 cm com tirzepatida e 13,0 cm com semaglutida (p < 0,001) — uma diferença clinicamente relevante, especialmente para mulheres na menopausa, em quem o acúmulo de gordura abdominal é um marcador central de risco cardiometabólico.

Parâmetros cardiometabólicos

A tirzepatida foi associada a melhoras mais expressivas em pressão arterial sistólica (-10,2 mmHg vs. -7,7 mmHg com semaglutida), glicemia de jejum, hemoglobina glicada, insulina em jejum, triglicerídeos e VLDL. Ambas as medicações produziram melhoras nos parâmetros metabólicos, mas a magnitude foi consistentemente maior com tirzepatida.

Segurança e tolerabilidade

O perfil de efeitos adversos foi comparável entre os grupos — predominantemente gastrointestinais (náuseas, vômitos, diarreia, constipação), mais frequentes durante o período de escalonamento de dose. A taxa de descontinuação por efeitos adversos foi semelhante entre os grupos. Aproximadamente 85% dos participantes completaram o estudo.

Por que a tirzepatida produziu maior redução de peso

A diferença de magnitude entre as duas medicações tem uma explicação mecanística. A semaglutida é um agonista seletivo do receptor de GLP-1 — atua principalmente na regulação do apetite via sistema nervoso central e no retardo do esvaziamento gástrico. A tirzepatida é um agonista duplo dos receptores de GIP (glucose-dependent insulinotropic polypeptide) e GLP-1, o que adiciona uma via de ação complementar.

O receptor de GIP está presente em adipócitos, enquanto os adipócitos não expressam receptores GLP-1 funcionais em quantidade significativa. Isso pode explicar a capacidade da tirzepatida de modular diretamente o metabolismo do tecido adiposo — incluindo lipólise e acúmulo de gordura — de forma que a semaglutida, atuando apenas no GLP-1, não reproduz.

Além disso, a ativação combinada de GIP e GLP-1 parece produzir sinergismo nos efeitos sobre saciedade, metabolismo energético e sensibilidade insulínica — resultando em maior eficácia global na redução de peso em comparação com a agonização isolada de GLP-1.

O que o estudo não responde

Interpretar o SURMOUNT-5 com rigor exige reconhecer suas limitações — que os autores do estudo listam explicitamente:

Desenho aberto — sem cegamento

O estudo foi conduzido de forma aberta: tanto os participantes quanto os investigadores sabiam qual medicação estava sendo usada. Isso pode introduzir viés de desempenho — por exemplo, participantes do grupo tirzepatida podem ter tido maior motivação ou adesão ao programa comportamental, influenciando os resultados além do efeito farmacológico isolado.

Sem comparação por dose fixa

O estudo comparou as doses máximas toleradas de cada medicação — não doses fixas equivalentes. Isso reflete melhor a prática clínica real, mas dificulta a comparação direta da eficácia dose a dose entre as duas substâncias.

Realizado exclusivamente nos EUA

Os 32 centros participantes estavam todos nos Estados Unidos e em Porto Rico. A extrapolação dos resultados para outras populações — incluindo brasileiras — exige cautela, considerando diferenças em composição genética, padrão alimentar, nível de atividade física e acesso a suporte comportamental.

Sem subgrupo específico de menopausa

Embora 64,7% dos participantes fossem mulheres e a idade média fosse de 44,7 anos — faixa compatível com perimenopausa —, o estudo não estratificou os resultados por status menopausal. Não é possível extrair dados específicos sobre a resposta de mulheres na menopausa a partir do SURMOUNT-5.

Financiamento pelo fabricante

O estudo foi financiado pela Eli Lilly and Company, fabricante da tirzepatida — dado que não invalida os resultados, mas deve ser considerado na avaliação crítica das conclusões e na leitura do comunicado da empresa.

Sem dados de longo prazo além de 72 semanas

O período de seguimento de 72 semanas é robusto, mas não oferece dados sobre manutenção do peso após descontinuação, efeitos a longo prazo sobre composição corporal ou eventos cardiovasculares definitivos.

Implicações para mulheres na menopausa

Embora o SURMOUNT-5 não tenha estratificado os resultados por status menopausal, os dados gerais têm implicações relevantes para essa população — especialmente quando considerados em conjunto com o que já se sabe sobre o metabolismo feminino na menopausa.

A redução de circunferência abdominal de 18,4 cm observada com tirzepatida é clinicamente significativa para mulheres na menopausa, em quem o acúmulo de gordura visceral pós-estrogênica representa um dos principais fatores de risco cardiometabólico. A gordura abdominal em mulheres pós-menopáusicas está associada a maior resistência insulínica, maior risco cardiovascular e maior inflamação sistêmica — exatamente os parâmetros que o SURMOUNT-5 mostra melhorar de forma mais expressiva com tirzepatida.

A análise post-hoc de risco cardiovascular, publicada no European Heart Journal Open em setembro de 2025, mostrou que a tirzepatida foi associada a maior redução do risco cardiovascular previsto em 10 anos em comparação com semaglutida — dado particularmente relevante para mulheres pós-menopáusicas, que têm aumento do risco cardiovascular após a queda do estrogênio.

No entanto, a decisão clínica para mulheres na menopausa continua exigindo individualização — considerando tolerância, comorbidades, uso de terapia hormonal, histórico de eventos cardiovasculares, custo, disponibilidade e preferências da paciente. O SURMOUNT-5 oferece dados de eficácia comparativa, mas não substitui a avaliação individual.

O que muda — e o que não muda — na prática clínica

O que muda

O SURMOUNT-5 encerra a era das comparações indiretas entre tirzepatida e semaglutida. A superioridade da tirzepatida em redução de peso, circunferência abdominal e parâmetros cardiometabólicos agora tem suporte em um ensaio clínico randomizado fase 3b de alta qualidade metodológica. Para pacientes sem contraindicações e com acesso, a tirzepatida passa a ter base de evidência mais sólida como primeira escolha quando o objetivo é maximizar a redução de peso e a melhora metabólica.

O que não muda

Maior eficácia média não significa que tirzepatida é a escolha certa para todos os pacientes. Semaglutida continua sendo uma opção com robusto suporte de evidências — incluindo dados de redução de eventos cardiovasculares em pacientes com obesidade sem diabetes (estudo SELECT, NEJM 2023). A escolha entre as duas deve considerar perfil da paciente, tolerância, acesso, custo, disponibilidade e indicação registrada pela Anvisa para cada substância.

Além disso, o SURMOUNT-5 reforça o que os estudos anteriores já mostravam: nenhuma dessas medicações funciona de forma isolada. O programa de suporte comportamental padronizado fazia parte do protocolo do estudo. Proteína adequada, treino resistido, sono e acompanhamento nutricional continuam sendo pilares insubstituíveis do tratamento.

Alertas importantes

  • Este artigo é uma análise crítica de estudo científico para fins educativos. Não constitui orientação terapêutica individual.
  • A indicação de tirzepatida ou semaglutida depende de avaliação médica individualizada, considerando diagnóstico, comorbidades, medicamentos em uso, indicação regulatória pela Anvisa e perfil da paciente.
  • Os resultados do SURMOUNT-5 foram obtidos em população norte-americana e com programa de suporte comportamental padronizado — condições que podem não refletir a prática clínica brasileira.
  • O financiamento do estudo pela Eli Lilly and Company deve ser considerado na interpretação crítica dos resultados.

Conclusão editorial

O SURMOUNT-5 representa um avanço real na base de evidências das terapias incretínicas. Pela primeira vez, a comparação entre tirzepatida e semaglutida tem o respaldo de um ensaio clínico randomizado com metodologia adequada — e os dados mostram diferença clinicamente relevante em favor da tirzepatida em todos os desfechos avaliados.

Para mulheres com obesidade e sem diabetes, especialmente aquelas na menopausa com maior acúmulo de gordura abdominal e risco cardiometabólico elevado, esses dados oferecem uma base mais sólida para a discussão terapêutica com o médico responsável.

Mas o SURMOUNT-5 também confirma algo que a literatura já sinalizava: eficácia farmacológica e qualidade do tratamento são dimensões diferentes. Maior perda de peso com tirzepatida não significa dispensa de estratégia nutricional, treino resistido, cuidado com composição corporal e acompanhamento profissional. O medicamento é uma ferramenta — o plano é o que transforma o resultado em saúde sustentável.

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Perguntas frequentes sobre o SURMOUNT-5

O SURMOUNT-5 prova que tirzepatida é melhor que semaglutida?

Prova superioridade estatisticamente significativa em redução de peso e parâmetros cardiometabólicos em adultos com obesidade sem diabetes, em 72 semanas, nas doses máximas toleradas. Isso é um dado de eficácia comparativa — não significa que tirzepatida é a escolha certa para todos os pacientes. A decisão clínica continua dependendo de avaliação individualizada.

Qual foi a diferença real de peso entre os grupos?

Em média, 20,2% de redução com tirzepatida versus 13,7% com semaglutida — equivalente a 22,8 kg versus 15,0 kg de redução absoluta em 72 semanas. A diferença de 6,5 pontos percentuais foi estatisticamente significativa (p < 0,001).

O estudo incluiu mulheres na menopausa?

Não houve estratificação por status menopausal. A maioria dos participantes era mulher (64,7%) e a idade média era de 44,7 anos — faixa compatível com perimenopausa — mas os resultados não foram reportados separadamente para esse subgrupo.

Os resultados valem para a população brasileira?

O estudo foi conduzido exclusivamente nos EUA e em Porto Rico. A extrapolação para a população brasileira exige cautela, considerando diferenças em composição genética, padrão alimentar, nível de atividade física e acesso a programas de suporte comportamental.

O estudo tem limitações importantes?

Sim. As principais são: desenho aberto sem cegamento, comparação por dose máxima tolerada em vez de dose fixa, realização exclusiva nos EUA, ausência de subgrupo menopausal, financiamento pelo fabricante da tirzepatida e seguimento limitado a 72 semanas.

Semaglutida continua sendo uma opção válida?

Sim. A semaglutida tem robusto suporte de evidências, incluindo dados de redução de eventos cardiovasculares em pacientes com obesidade sem diabetes (SELECT trial). Para muitos pacientes, continua sendo uma opção eficaz, especialmente quando o acesso, o custo ou o perfil individual indicam essa escolha.

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Referências científicas

Aronne LJ, Horn DB, le Roux CW, et al. Tirzepatide as compared with semaglutide for the treatment of obesity. New England Journal of Medicine. 2025;393(1):26-36. doi:10.1056/NEJMoa2416394.

Mamas MA, Bays H, Li R, et al. Tirzepatide compared with semaglutide and 10-year cardiovascular disease risk reduction in obesity: post-hoc analysis of the SURMOUNT-5 trial. European Heart Journal Open. 2025;5(5):oeaf117. doi:10.1093/ehjopen/oeaf117.

Lincoff AM, Brown-Frandsen K, Colhoun HM, et al. Semaglutide and cardiovascular outcomes in obesity without diabetes. New England Journal of Medicine. 2023;389:2221-2232. doi:10.1056/NEJMoa2307563.

Jastreboff AM, Aronne LJ, Ahmad NN, et al. Tirzepatide once weekly for the treatment of obesity. New England Journal of Medicine. 2022;387:205-216. doi:10.1056/NEJMoa2206038.

Wilding JPH, Batterham RL, Calanna S, et al. Once-weekly semaglutide in adults with overweight or obesity. New England Journal of Medicine. 2021;384:989-1002. doi:10.1056/NEJMoa2032183.

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