Publicado no New England Journal of Medicine, o SURMOUNT-5 compara diretamente tirzepatida e semaglutida em adultos com obesidade ou sobrepeso sem diabetes tipo 2 — e ajuda o profissional a interpretar eficácia, limitações e aplicação clínica com mais precisão.
Durante anos, a comparação entre tirzepatida e semaglutida foi feita de forma indireta: estudos diferentes, populações diferentes, doses diferentes, tempos de seguimento diferentes e critérios metodológicos nem sempre equivalentes. Para a prática clínica, isso criava uma dúvida legítima: quando a escolha entre as duas terapias incretínicas é relevante, em que dados basear a decisão?
O SURMOUNT-5 reduz parte dessa incerteza. O estudo comparou, em um mesmo ensaio clínico randomizado, tirzepatida e semaglutida em adultos com obesidade ou sobrepeso com comorbidade relacionada ao peso, sem diabetes tipo 2. Os resultados mostram maior redução média de peso e de circunferência abdominal com tirzepatida em 72 semanas.
Mas um estudo comparativo não deve ser lido como autorização para simplificar a conduta. A decisão terapêutica continua sendo médica, individualizada e dependente de indicação regulatória, tolerância, comorbidades, custo, disponibilidade, preferências do paciente e acompanhamento multiprofissional.
Este artigo organiza o que o SURMOUNT-5 mostrou, o que ele não responde e como nutricionistas podem usar essa evidência com rigor crítico, especialmente ao discutir composição corporal, preservação de massa magra, adesão alimentar e saúde metabólica feminina.
Índice de conteúdo
O que é o SURMOUNT-5 e por que ele importa
O SURMOUNT-5 é um ensaio clínico randomizado fase 3b, multicêntrico, aberto e controlado, que comparou tirzepatida e semaglutida em adultos com obesidade ou sobrepeso com pelo menos uma comorbidade relacionada ao peso, sem diabetes tipo 2.
Sua relevância está no desenho. Pela primeira vez, as duas terapias foram avaliadas na mesma população, com o mesmo período de seguimento, desfechos pré-especificados e comparação direta. Isso não elimina todas as limitações metodológicas, mas oferece uma base mais robusta do que comparações indiretas entre estudos diferentes.
Raciocínio clínico: o SURMOUNT-5 melhora a qualidade da comparação entre as terapias, mas não transforma percentual médio de perda de peso em critério único de decisão. Para nutricionistas, o dado precisa ser traduzido em monitoramento de composição corporal, força, ingestão proteica, tolerância alimentar e manutenção.
Para a nutrição clínica, o estudo importa porque reforça duas ideias ao mesmo tempo: a eficácia farmacológica pode variar entre terapias incretínicas, e a qualidade do emagrecimento continua dependendo de acompanhamento alimentar, preservação de massa magra, manejo de efeitos gastrointestinais, rotina possível e continuidade do cuidado.
Desenho do estudo: população, intervenção e desfechos
Participantes
O estudo randomizou 751 adultos com obesidade ou sobrepeso associado a pelo menos uma comorbidade relacionada ao peso, como hipertensão, dislipidemia, apneia obstrutiva do sono ou doença cardiovascular. Pessoas com diabetes tipo 2 foram excluídas.
O IMC médio foi de 39,4 kg/m², o peso médio de 113 kg e a idade média de aproximadamente 44,7 anos. A maioria dos participantes era do sexo feminino, mas o estudo não apresentou análise específica por status menopausal.
Intervenção
Os participantes receberam, por 72 semanas, a dose máxima tolerada de tirzepatida (10 mg ou 15 mg semanais) ou semaglutida (1,7 mg ou 2,4 mg semanais), ambas por via subcutânea. O estudo incluiu suporte comportamental padronizado para os dois grupos.
Desfechos
O desfecho primário foi a variação percentual no peso corporal do início até a semana 72. Entre os desfechos secundários estavam proporções de participantes que atingiram diferentes metas de perda de peso, redução da circunferência abdominal e alterações em parâmetros cardiometabólicos.
Resultados principais: peso, cintura e parâmetros metabólicos
Redução de peso
Na semana 72, a tirzepatida levou a maior redução média de peso do que a semaglutida. O estudo reportou redução média de 20,2% com tirzepatida versus 13,7% com semaglutida, com diferença estatisticamente significativa. Em termos absolutos, a redução média foi de 22,8 kg com tirzepatida e 15,0 kg com semaglutida.
Metas de redução ponderal
A proporção de participantes que atingiu reduções de peso de 10%, 15%, 20%, 25% e 30% também foi maior no grupo tirzepatida. Esse dado é clinicamente relevante porque mostra não apenas diferença na média, mas maior probabilidade de alcançar faixas de perda ponderal associadas a melhora metabólica.
| Meta de redução de peso | Tirzepatida | Semaglutida |
|---|---|---|
| ≥ 10% | 81,6% | 60,5% |
| ≥ 15% | 64,6% | 40,1% |
| ≥ 20% | 48,4% | 27,3% |
| ≥ 25% | 31,6% | 16,1% |
| ≥ 30% | 19,7% | 6,9% |
Circunferência abdominal
A circunferência da cintura reduziu, em média, 18,4 cm com tirzepatida e 13,0 cm com semaglutida. A diferença é importante porque a cintura é um marcador prático de adiposidade abdominal e risco cardiometabólico, embora não substitua avaliação clínica completa.
Parâmetros cardiometabólicos
Ambas as terapias melhoraram parâmetros cardiometabólicos. Em alguns marcadores, a magnitude média foi maior com tirzepatida, incluindo pressão arterial sistólica, glicemia, hemoglobina glicada, insulina em jejum, triglicerídeos e VLDL. A leitura clínica deve considerar que esses são desfechos intermediários e que o estudo não foi desenhado para comparar eventos cardiovasculares duros entre as duas terapias.
Segurança e tolerabilidade
Os efeitos adversos foram predominantemente gastrointestinais, como náuseas, vômitos, diarreia e constipação, especialmente durante a escalada de dose. Na prática nutricional, isso reforça a importância de ajustar volume alimentar, textura, teor de gordura, fibras, hidratação e distribuição proteica conforme tolerância.
Como interpretar a maior redução de peso com tirzepatida
A semaglutida atua principalmente no receptor de GLP-1. A tirzepatida atua em GIP e GLP-1. Essa diferença ajuda a explicar por que a tirzepatida, em média, produziu maior perda ponderal no SURMOUNT-5.
No entanto, a interpretação mecanística deve ser cuidadosa. A maior eficácia média observada não significa que todo paciente terá melhor resposta com tirzepatida, nem que a escolha farmacológica possa ser feita apenas pelo percentual de perda de peso. Resposta individual, tolerabilidade, contraindicações, adesão, custo, disponibilidade e objetivo clínico importam.
Ponto de atenção: perda de peso total não equivale automaticamente a melhor composição corporal. Para o nutricionista, a pergunta operacional continua sendo: quanto desse peso perdido representa redução de gordura, quanto pode envolver massa magra e como proteger força, funcionalidade e saúde metabólica durante o processo?
O que o estudo não responde
Não responde qual terapia é melhor para cada paciente
O SURMOUNT-5 mostra superioridade média da tirzepatida em desfechos de peso e cintura dentro da população estudada. Ele não define a melhor escolha para cada indivíduo. Essa decisão é médica, individualizada e dependente de indicação, risco-benefício, acesso, tolerância e preferências do paciente.
Não avalia especificamente mulheres na menopausa
Embora a maioria dos participantes fosse mulher e a idade média se aproxime da perimenopausa, o estudo não estratificou os resultados por status menopausal. Portanto, não é correto afirmar que o SURMOUNT-5 prova superioridade específica da tirzepatida em mulheres na menopausa.
Não mede diretamente preservação de massa muscular como desfecho central
O estudo compara perda de peso, cintura e marcadores cardiometabólicos. Para a prática nutricional, ainda é necessário avaliar composição corporal, ingestão proteica, força, funcionalidade e adesão alimentar ao longo do acompanhamento.
Não substitui dados de desfechos cardiovasculares
A análise post hoc de risco cardiovascular projetado sugere maior redução de risco previsto com tirzepatida em comparação com semaglutida, mas trata-se de projeção baseada em equações de risco, não de eventos cardiovasculares observados em um ensaio desenhado para esse fim.
Possui financiamento do fabricante
O estudo foi financiado pela Eli Lilly, fabricante da tirzepatida. Isso não invalida os achados publicados, mas deve fazer parte da leitura crítica, especialmente ao interpretar comunicados comerciais e conclusões extrapoladas.
Implicações para mulheres na perimenopausa e menopausa
O estudo não oferece dados específicos para menopausa, mas seus resultados dialogam com problemas clínicos frequentes nessa fase: maior adiposidade abdominal, piora da resistência insulínica em parte das mulheres, maior risco cardiometabólico, perda progressiva de massa muscular e maior necessidade de preservar força durante o emagrecimento.
A redução de circunferência abdominal observada no SURMOUNT-5 pode ser relevante para mulheres 40+, mas deve ser interpretada dentro de um plano mais amplo. Em mulheres na perimenopausa e menopausa, o cuidado não deve se limitar à escolha medicamentosa: proteína adequada, treino resistido, sono, saúde óssea, sintomas vasomotores, saúde intestinal e comportamento alimentar continuam sendo pilares clínicos.
Na prática, o estudo reforça a importância de não tratar o emagrecimento farmacológico apenas como redução de peso. O ponto central é qualificar o resultado: menos gordura abdominal, melhor metabolismo, preservação de massa magra e mais funcionalidade.
O que muda — e o que não muda — na prática clínica
O que muda
A comparação direta reduz a incerteza que existia nas análises indiretas. Para pacientes sem diabetes tipo 2 e com perfil semelhante ao do estudo, a tirzepatida mostrou maior redução média de peso e cintura do que a semaglutida nas doses máximas toleradas.
Isso pode enriquecer a discussão terapêutica entre paciente e médico prescritor, especialmente quando a meta clínica envolve perda ponderal mais expressiva e redução de adiposidade abdominal.
O que não muda
Semaglutida continua sendo uma opção com base robusta de evidências, incluindo dados cardiovasculares em pessoas com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular estabelecida sem diabetes no SELECT. Além disso, a eficácia média de uma medicação não substitui individualização.
Também não muda o papel da nutrição: a terapia incretínica pode reduzir apetite e facilitar perda de peso, mas não garante ingestão proteica, adequação de micronutrientes, treino de força, saúde intestinal, manutenção do resultado ou preservação de massa magra.
Papel do nutricionista e limites de atuação
O que compete ao prescritor
A indicação, escolha da medicação, dose, titulação, pausa, troca ou interrupção de terapias incretínicas são decisões do médico prescritor. Também cabem ao prescritor a avaliação de contraindicações, risco-benefício farmacológico, eventos adversos relevantes e interações medicamentosas.
O que compete ao nutricionista
Ao nutricionista cabe avaliar ingestão alimentar, composição corporal, sintomas gastrointestinais, função intestinal, ingestão proteica, qualidade da dieta, comportamento alimentar e adesão. Também cabe ao nutricionista comunicar à equipe sinais que indiquem necessidade de reavaliação médica, sem orientar mudança de dose ou suspensão medicamentosa.
Limites de atuação: o nutricionista não escolhe, prescreve, titula, reduz, pausa ou suspende terapias incretínicas. Sua atuação é qualificar o cuidado nutricional, monitorar riscos, apoiar adesão e comunicar sinais de atenção à equipe.
| Parâmetro | Por que monitorar | Aplicação prática |
|---|---|---|
| Ingestão proteica | Redução de apetite pode reduzir proteína total e por refeição. | Distribuir proteína ao longo do dia, ajustando textura e volume. |
| Composição corporal | O peso não diferencia gordura, água e massa magra. | Acompanhar BIA/DEXA quando disponível e associar medidas funcionais. |
| Força e funcionalidade | Preservação muscular importa para metabolismo, autonomia e longevidade. | Usar dinamometria, sentar-levantar, desempenho no treino e relatos funcionais. |
| Sintomas gastrointestinais | Náusea, constipação e refluxo interferem na adesão alimentar. | Ajustar volume, gordura, fibras, hidratação, horários e texturas. |
| Comportamento alimentar | Redução do apetite não resolve automaticamente compulsão, culpa ou restrição. | Rastrear sinais de risco e encaminhar quando necessário. |
Alertas importantes
- Este artigo é uma análise crítica de estudo científico para fins educativos e profissionais. Não constitui indicação medicamentosa individual.
- A decisão entre tirzepatida, semaglutida ou outra estratégia terapêutica é médica e deve respeitar indicação regulatória, comorbidades, contraindicações, acesso e preferência do paciente.
- O SURMOUNT-5 foi conduzido em população específica, sem diabetes tipo 2, com suporte comportamental padronizado e sem análise específica por status menopausal.
- A análise cardiovascular post hoc usa risco previsto, não eventos cardiovasculares observados como desfecho primário.
- Maior perda de peso média não elimina a necessidade de monitorar massa magra, força, ingestão proteica, sintomas gastrointestinais e manutenção do resultado.
Conclusão editorial
O SURMOUNT-5 representa um avanço importante na comparação entre terapias incretínicas. Pela primeira vez, tirzepatida e semaglutida foram comparadas diretamente em um ensaio randomizado com adultos com obesidade sem diabetes tipo 2, e a tirzepatida mostrou maior redução média de peso e circunferência abdominal em 72 semanas.
Para a prática clínica, esse resultado melhora a qualidade da conversa terapêutica, mas não simplifica a decisão. A escolha medicamentosa continua sendo médica, individualizada e dependente de múltiplos fatores. Para o nutricionista, o estudo reforça a importância de qualificar o emagrecimento: preservar massa magra, monitorar função, ajustar alimentação, manejar sintomas gastrointestinais e sustentar o resultado no longo prazo.
A leitura mais útil do SURMOUNT-5 não é transformar uma medicação em resposta universal, mas usar a evidência para fazer perguntas clínicas melhores.
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Perguntas frequentes sobre o SURMOUNT-5
O SURMOUNT-5 prova que tirzepatida é melhor que semaglutida?
Ele mostra superioridade estatística da tirzepatida em redução de peso e circunferência abdominal em adultos com obesidade sem diabetes tipo 2, nas doses máximas toleradas e ao longo de 72 semanas. Isso não significa que tirzepatida seja a melhor escolha para todos os pacientes.
Qual foi a diferença média de peso entre os grupos?
A redução média foi de 20,2% com tirzepatida versus 13,7% com semaglutida. Em termos absolutos, isso correspondeu a 22,8 kg versus 15,0 kg em 72 semanas.
O estudo incluiu mulheres na menopausa?
O estudo incluiu maioria feminina e idade média compatível com perimenopausa, mas não estratificou resultados por status menopausal. Portanto, não permite conclusões específicas para mulheres na menopausa.
A análise cardiovascular post hoc confirma redução de eventos cardiovasculares?
Não. Ela estimou redução de risco cardiovascular previsto em 10 anos por modelos de risco. Isso é diferente de medir eventos cardiovasculares reais em um ensaio desenhado para esse desfecho.
Semaglutida continua sendo uma opção válida?
Sim. A semaglutida possui evidência robusta em obesidade e dados cardiovasculares importantes no estudo SELECT em pessoas com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular estabelecida, sem diabetes.
Qual é o papel do nutricionista diante desses dados?
O nutricionista não escolhe, titula ou suspende a medicação. Seu papel é monitorar alimentação, proteína, composição corporal, sintomas gastrointestinais, comportamento alimentar, força e adesão, além de comunicar sinais de atenção à equipe.
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Referências científicas
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